quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Homo corporativus- André Lavinas


Depois que Darwin publicou o seu trabalho sobre a evolução das espécies, em 1859, muita coisa mudou no mundo. Houve um desenvolvimento extraordinário das forças produtivas, as relações capitalistas de produção passaram a submeter todo o planeta, até mesmo os seus rincões mais isolados. Nas últimas décadas, o ritmo das transformações impostas pelo capitalismo se intensificou. Hoje, praticamente todos os aspectos da nossa vida são monitorados, induzidos e controlados por grandes corporações capitalistas. A nossa saúde, educação, cultura, a arquitetura das nossas cidades, o nosso ecossistema, a forma como convivemos em sociedade, enfim, tudo, está subordinado às relações capitalistas. Está claro, pelo menos para a maioria, que estas transformações no nosso meio ambiente estão provocando uma profunda mudança no comportamento dos seres humanos.
Pensando em "A Origem das Espécies", de Charles Darwin, e na velocidade extrema das mudanças ocorridas na nossa sociedade, nos últimos anos, chego a acreditar que o processo de evolução das espécies, que via de regra, leva de milhares a milhões de anos para acontecer, parece estar se acelerando no caso da espécie humana. Já observamos em milhares de seres humanos adaptações que apontam para o surgimento de uma nova espécie: o "Homo corporativus".
O "Homo corporativus" parece ser a resposta da espécie humana às mudanças ocorridas na sociedade capitalista, particularmente, nas últimas três décadas. Este novo tipo de homem, embora compartilhe o mesmo DNA do "Homo sapiens", possui um comportamento marcadamente diferente em vários aspectos, sobretudo no que diz respeito à sua capacidade de se relacionar com o mundo à sua volta e com os outros seres humanos.
Esta "nova" espécie de homem possui inteligência, mas não tanto quanto o "Homo sapiens". E a sua inteligência se aplica a um espectro muito restrito de atividades que estão relacionadas quase que exclusivamente ao seu trabalho. Em suma, ele só pensa em trabalho. Todas as demais atividades que a sua condição humana lhe impõe, tais como: comer, se relacionar com pessoas fora do trabalho - familiares, amigos (se é que os tem fora do trabalho), filhos, vizinhos etc.-, transar, se divertir, ouvir música, ver filmes etc., são executadas por ele de forma automática. Para ele todos estes aspectos da vida constituem um fardo, um conjunto de ações que só lhe tiram o foco e atrapalham no atingimento do seu objetivo que é estar 24 horas disponível para a empresa.
Estas atividades fazem parte do rol de "trabalhos" que são importantes para a manutenção da rede de relacionamentos que lhe permite interagir em momentos fora do ambiente do trabalho com outros "Homo corporativus" que estão posicionados degraus acima na hierarquia da empresa, sempre no intuito de estar bem inserido dentro desta rede. A família e os amigos, para este ser peculiar, são, antes de tudo, meios para lhe proporcionar as condições para o atingimento dos seus objetivos profissionais. Eventualmente, é claro, afloram ainda alguns elementos do "Homo sapiens" que impedem uma total "corporativização" da vida e o colocam em situações nais quais tem de lidar com problemas emocionais dos filhos, da esposa, dos pais etc..
Mesmo tendo seus raros momentos de emoção fora do trabalho, o lado emocional do Homo corporativus, via de regra, acompanha os altos e baixos da sua carreira e da empresa. Se os números da empresa vão bem, ele está bem. Se os números não são tão bons ele vai mal. Ele possui uma relação simbiótica com a corporação com a qual está vinculado. É quase como um cordão umbilical. Se a empresa falir, se perder seu emprego, se se aposentar, o "Homo corporativus" morre.
Se você perguntar quais são as metas da empresa para o semestre ele responderá rapidamente de cor e salteado. Se perguntar de que filme mais gostou, vai demorar um tempo pensando e talvez lhe responda que foi um filme que viu quando ainda era um adolescente (tempo em que ainda não era um "Homo corporativus"). Se lhe perguntar qual é o "market share" da sua empresa atualmente, a resposta estará na ponta da língua, mas se perguntar de que música mais gosta, ele hesitará em responder, citará alguma música recente de que se lembre do refrão, provavelmente irá errar o nome da música. Se perguntar qual é o livro de que mais gosta, com certeza lhe responderá que é algum destes "blockbusters" da vida, como "Quem mexeu no meu queijo?", "A arte da Guerra", a biografia do Steve Jobs, ou outro qualquer da moda, que ele lê apenas para ter assunto nos intervalos das reuniões da empresa.
Em suma, se você perguntar sobre qualquer tema que envolva um conhecimento necessário para o seu trabalho ele prontamente lhe responderá detalhadamente e satisfatoriamente. Porém, se perguntar-lhe sobre temas que não envolvam direta ou indiretamente o seu trabalho, ele talvez até arrisque uma resposta, mas, certamente, não será adequada.
Um ser humano não nasce "Homo corporativus", e nem há uma predisposição genética para esta transformação. Na verdade, qualquer "Homo sapiens" pode se tornar um "homo corporativus", basta, para isso, que um "sapiens" frequente uma destas centenas de faculdades que ensinam o "B, A, BA" do " Homo corporativus", ou que faça qualquer um deste MBAs da vida, que arranje um emprego numa empresa, em geral de grande porte, nacional ou multinacional, onde se respira o empreendedorismo, onde as frases mais simples sempre são arrematadas com estrangeirismos em inglês (benchmark, market share, full time, brainstorm etc.), onde haja um belo organograma funcional no qual fique claro que há uma distância imensa entre a base e o topo e que para você ganhar um salário decente vai ter um longo caminho a percorrer, e, finalmente, onde abundem reuniões nas quais alguns "Homo corporativus" em cargos de chefia despejam toneladas de jargões como: "temos que vestir a camisa", "nós fazemos a diferença", "esta equipe é show", entre outros do gênero.
A evolução de uma espécie, como nos ensinou Darwin, não significa necessariamente um salto qualitativo, pois, ao evoluírem, as espécies ganham algumas características que lhes permitem sobreviver às novas condições impostas pelo seu meio ambiente, mas também podem perder características importantes e se tornarem seres menos dotados de uma série de qualidades, como por exemplo a inteligência. Este parece ser o caso da "evolução" do "homo sapiens" para o "Homo corporativus". Embora a perda de parte importante de sua inteligência e sensibilidade já seja muito ruim, o "Homo corporativus" ao "evoluir" perdeu algo muito mais importante: a capacidade de ser feliz.
Desejo a todos os "Homo sapiens" e "Homo corporativus" um feliz 2012, mesmo sabendo que infelizmente para os últimos isso não acontecerá.

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