sábado, 28 de janeiro de 2012

Lembranças de um passado bom

Hoje eu resolvi arrumar meu armário. Sempre adiava dizendo que armário arrumado é sinal de burguês burro. Mas, como estou todos os dias no laboratório e organização lá é fundamental, também estou adquirindo o hábito de ser organizada( eu sou uma pseudoorganizada). Me deparei com uma coleção de livros que eu ganhei quando tinha seis anos de idade. Quando aprendi a ler. 
A coleção é do jornal o Globo do ano de 1990  intitulada Os grandes Humanistas e Os grandes cientistas. Minha tia assinava esse jornal e mantinha essa coleção na estante de uma saleta na sua casa, me recordo muito bem. Eu ficava olhando e quando eu já sabia ler meu nome disse que já sabia ler tudo e ela mandou minha mãe me dar.  Disse que no futuro eu ia gostar. E gostei. Ela mal  sabia que sua sobrinha era um tanto prafrentex e que acabara de picotar  vários livros da Agatha Christie da sua irmã. 
Com seis anos eu já era bem abusada e dizia que não gostava de ler os contos de fadas que vovó Sany tinha me dado. Minha mãe guardou bem escondido os livros numa caixa dentro do guarda-roupa. Um dia eu os encontrei. Tirei delicadamente um por um. Ri da careca do Gandhi da cabeleira do Newton e da Margaret Mead( sou fã dela). Recortei várias figurinhas do livro do Darwin e depois guardei. 
Anos depois para um trabalho de escola minha mãe resolve pegar o livro do Nelson Mandela e me dar para pesquisa sobre Apartheid. Li o livro todo, li o do Thomas Edison e da Margaret Mead( um dia vou ser como ela ). Conclusão, minha tia antes de partir desse mundo me deixou algo que vou guardar para o resto de minha vida. Aprendi tanto com esses livros, aprendi tanto com ela. 
Hoje me dá saudade. O rio sem ela não é o rio. Minha vida sem esses livros não é minha vida. Termino essa lembrança com uma frase muito querida do Gandhi:  " Sem sombra de dúvidas, qualquer homem ou mulher pode realizar o que realizei, desde faça o mesmo esforço e cultive a mesma esperança e fé"
Abraços

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Escuro

Rotatividade solidão
Esse meu estado de psico sei lá o que
Vultos
Vozes

Isso será que existe?
Sou só eu que vejo?
Sou só eu que sinto?
Que coisinha chata
Que coisinha merda

Eu vou sair correndo
Eu vou ficar sem medo
Eu naõ vou ser seu brinquedo
Pois minha mente não está querendo

Aruanda

Cortei minhas asas. E não achei ruim. Eu viajei por uns lugares muito psicodélicos. Esqueci das  minhas ideologias. Eu comecei a pirar e pirar e a ficar cada vez mais louca. Me despi de tudo que aprendi até hoje. Eu resolvi ser feliz. Não que eu não seja uma pessoa feliz. Eu sou feliz, muito por sinal. A questão é que eu estava me questionando muito, lendo muito, entrando em profundas contradições e não chegando a uma resposta certa. A meu ver eu nunca vou encontra-la. A relatividade existe e está aí para isso. O que é certo para mim pode ser errado para você e assim nós vamos vivemos. Prefiro ficar aqui com o meu vinho barato, minhas meias de compressão e meus livros queridos. Eu estou melhor assim. Tirei da minha cabeça aquela frase sem noção que vivem repetindo para mim:" Quente ou frio, morno eu te vomito". Podem me vomitar. Eu cansei do radicalismo. Eu quero é estar sem razão. E assim minha felicidade se prolongará.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

#

Um dia eu vou te encarar. Não vou fugir, nem me esconder. Sei que sou mais forte. Apesar dos apesares. Vou parar de suar frio, de tremer. Eu sou mais forte que você, eu sou mais forte que você, eu sou mais forte que você, eu sou mais forte que você, eu sou mais forte que você, eu sou mais forte que você, eu sou mais forte que você. Vou repetir até acreditar. Você me faz um mal. Eu perco minha razão. É tão chato, é tão ruim. Mas, um dia eu vou vencer você, eu sei disso.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Ontem

Como sinto saudade quando as minhas preocupações eram qual carne ia ser servida no almoço, que presente eu ganharia no meu aniversário e no natal. Que saudade quando o catolicismo era a minha verdade e eu acreditava nessa verdade e ela iria me salvar. Que saudade de não saber o que é ressaca, de não saber o que é ter um amor e não ser amada.  Esse mundo dos adultos é algo muito chato. Não se pode brincar, não se pode imaginar, não se pode viver. A liberdade nos é abafada. Que coisa mais chata. Hoje eu estava olhando para uma criança e vi que será uma pena quando ela crescer. Eu quero voltar a ser criança. Quero andar a cavalo em Rosal, comer tamarindo no pé em Apiacá, sambar no sambódromo sem estar bêbada... Ah, eu quero largar tudo que me aconteceu até hoje. Quero ser a menininha inocente e simples. Todavia, é muito bom conhecer outras verdades, amar e não ser amada e beber e sambar. Agora já nem sei. Paradoxo pouco é bobagem !

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Transflusão

Cade aquele amor que você me prometeu
Você roubou de mim todo o viver
Todo o poder
Deixou o sofrer

A morte grita em alto e em bom som dentro de mim
A saudade samba de salto agulha de-li-ca-da-men-te no meu coração
E a minha razão, ah, ela me diz para te esquecer

*

Expor aos oprimidos a verdade sobre a situação é abrir-lhes o caminho para a revolução" Trotsky 

Fica a dica. É por isso que eu gosto de escancarar o que eu penso. Vejo a juventude parada, inerte, não participativa. Me sinto um pinto no lixo quando me reúno com pessoas com a mente um pouco mais aberta. Fico pensando aonde iremos chegar com essa mente corrompida pelo bom senso, acuada pela opinião dos outros e pequena quando o assunto é discriminação. Outra coisa que li em um outro blog foi que ignorante é a pessoa que não tem ciência ou não sabe sobre algo. E a pessoa é burra quando se esforça para não querer entender, aí já é estupidez. Pois bem, creio que não preciso dizer muito sobre os comentários e a frase do Trotsky que tanto me inspiram. Não estou dizendo que sou dona da verdade, só busco a verdade que eu acho mais aceitável para meu momento e para o que eu acredito. Cada um é livre, aliás, a liberdade de pensamento é a única que temos de fato. Viva da forma que você queira viver, só viva intensamente respeitando os outros e tentando buscar a sua verdade. Não sendo burra já está de bom tamanho. Também busque analisar os dois lados da moeda e olhar além da peneira. Peneira essa que a sociedade insiste em colocar para tapar o lindo, forte e brilhante sol.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ida

O meu peito ardia
Ardia os meus olhos
Ardia minha boca
Ardia todo o meu ser

O seu adeus me foi ardido
Me foi sofrido
Me foi sem saber
Eu olho para as fotos
Eu olho para você

Te desejo,  te amo
E meu peito não para de bater
Eu sou só sua
Vem, vem  ser meu bem querer

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Homo corporativus- André Lavinas


Depois que Darwin publicou o seu trabalho sobre a evolução das espécies, em 1859, muita coisa mudou no mundo. Houve um desenvolvimento extraordinário das forças produtivas, as relações capitalistas de produção passaram a submeter todo o planeta, até mesmo os seus rincões mais isolados. Nas últimas décadas, o ritmo das transformações impostas pelo capitalismo se intensificou. Hoje, praticamente todos os aspectos da nossa vida são monitorados, induzidos e controlados por grandes corporações capitalistas. A nossa saúde, educação, cultura, a arquitetura das nossas cidades, o nosso ecossistema, a forma como convivemos em sociedade, enfim, tudo, está subordinado às relações capitalistas. Está claro, pelo menos para a maioria, que estas transformações no nosso meio ambiente estão provocando uma profunda mudança no comportamento dos seres humanos.
Pensando em "A Origem das Espécies", de Charles Darwin, e na velocidade extrema das mudanças ocorridas na nossa sociedade, nos últimos anos, chego a acreditar que o processo de evolução das espécies, que via de regra, leva de milhares a milhões de anos para acontecer, parece estar se acelerando no caso da espécie humana. Já observamos em milhares de seres humanos adaptações que apontam para o surgimento de uma nova espécie: o "Homo corporativus".
O "Homo corporativus" parece ser a resposta da espécie humana às mudanças ocorridas na sociedade capitalista, particularmente, nas últimas três décadas. Este novo tipo de homem, embora compartilhe o mesmo DNA do "Homo sapiens", possui um comportamento marcadamente diferente em vários aspectos, sobretudo no que diz respeito à sua capacidade de se relacionar com o mundo à sua volta e com os outros seres humanos.
Esta "nova" espécie de homem possui inteligência, mas não tanto quanto o "Homo sapiens". E a sua inteligência se aplica a um espectro muito restrito de atividades que estão relacionadas quase que exclusivamente ao seu trabalho. Em suma, ele só pensa em trabalho. Todas as demais atividades que a sua condição humana lhe impõe, tais como: comer, se relacionar com pessoas fora do trabalho - familiares, amigos (se é que os tem fora do trabalho), filhos, vizinhos etc.-, transar, se divertir, ouvir música, ver filmes etc., são executadas por ele de forma automática. Para ele todos estes aspectos da vida constituem um fardo, um conjunto de ações que só lhe tiram o foco e atrapalham no atingimento do seu objetivo que é estar 24 horas disponível para a empresa.
Estas atividades fazem parte do rol de "trabalhos" que são importantes para a manutenção da rede de relacionamentos que lhe permite interagir em momentos fora do ambiente do trabalho com outros "Homo corporativus" que estão posicionados degraus acima na hierarquia da empresa, sempre no intuito de estar bem inserido dentro desta rede. A família e os amigos, para este ser peculiar, são, antes de tudo, meios para lhe proporcionar as condições para o atingimento dos seus objetivos profissionais. Eventualmente, é claro, afloram ainda alguns elementos do "Homo sapiens" que impedem uma total "corporativização" da vida e o colocam em situações nais quais tem de lidar com problemas emocionais dos filhos, da esposa, dos pais etc..
Mesmo tendo seus raros momentos de emoção fora do trabalho, o lado emocional do Homo corporativus, via de regra, acompanha os altos e baixos da sua carreira e da empresa. Se os números da empresa vão bem, ele está bem. Se os números não são tão bons ele vai mal. Ele possui uma relação simbiótica com a corporação com a qual está vinculado. É quase como um cordão umbilical. Se a empresa falir, se perder seu emprego, se se aposentar, o "Homo corporativus" morre.
Se você perguntar quais são as metas da empresa para o semestre ele responderá rapidamente de cor e salteado. Se perguntar de que filme mais gostou, vai demorar um tempo pensando e talvez lhe responda que foi um filme que viu quando ainda era um adolescente (tempo em que ainda não era um "Homo corporativus"). Se lhe perguntar qual é o "market share" da sua empresa atualmente, a resposta estará na ponta da língua, mas se perguntar de que música mais gosta, ele hesitará em responder, citará alguma música recente de que se lembre do refrão, provavelmente irá errar o nome da música. Se perguntar qual é o livro de que mais gosta, com certeza lhe responderá que é algum destes "blockbusters" da vida, como "Quem mexeu no meu queijo?", "A arte da Guerra", a biografia do Steve Jobs, ou outro qualquer da moda, que ele lê apenas para ter assunto nos intervalos das reuniões da empresa.
Em suma, se você perguntar sobre qualquer tema que envolva um conhecimento necessário para o seu trabalho ele prontamente lhe responderá detalhadamente e satisfatoriamente. Porém, se perguntar-lhe sobre temas que não envolvam direta ou indiretamente o seu trabalho, ele talvez até arrisque uma resposta, mas, certamente, não será adequada.
Um ser humano não nasce "Homo corporativus", e nem há uma predisposição genética para esta transformação. Na verdade, qualquer "Homo sapiens" pode se tornar um "homo corporativus", basta, para isso, que um "sapiens" frequente uma destas centenas de faculdades que ensinam o "B, A, BA" do " Homo corporativus", ou que faça qualquer um deste MBAs da vida, que arranje um emprego numa empresa, em geral de grande porte, nacional ou multinacional, onde se respira o empreendedorismo, onde as frases mais simples sempre são arrematadas com estrangeirismos em inglês (benchmark, market share, full time, brainstorm etc.), onde haja um belo organograma funcional no qual fique claro que há uma distância imensa entre a base e o topo e que para você ganhar um salário decente vai ter um longo caminho a percorrer, e, finalmente, onde abundem reuniões nas quais alguns "Homo corporativus" em cargos de chefia despejam toneladas de jargões como: "temos que vestir a camisa", "nós fazemos a diferença", "esta equipe é show", entre outros do gênero.
A evolução de uma espécie, como nos ensinou Darwin, não significa necessariamente um salto qualitativo, pois, ao evoluírem, as espécies ganham algumas características que lhes permitem sobreviver às novas condições impostas pelo seu meio ambiente, mas também podem perder características importantes e se tornarem seres menos dotados de uma série de qualidades, como por exemplo a inteligência. Este parece ser o caso da "evolução" do "homo sapiens" para o "Homo corporativus". Embora a perda de parte importante de sua inteligência e sensibilidade já seja muito ruim, o "Homo corporativus" ao "evoluir" perdeu algo muito mais importante: a capacidade de ser feliz.
Desejo a todos os "Homo sapiens" e "Homo corporativus" um feliz 2012, mesmo sabendo que infelizmente para os últimos isso não acontecerá.